Sunday, 3 July 2016

Coimbra tem mais encanto ... à mesa

A zona de Coimbra pode ser, para os mais distraídos, considerada uma zona com pouca identidade gastronómica, principalmente quando comparada com outras regiões como o Minho, o Alentejo ou Trás-os-Montes. Nada de mais errado, se pensarmos na riqueza e diversidade da cozinha beirã, a proximidade ao leitão e o facto de ser o berço da mítica chanfana, um expoente máximo da nossa gastronomia. Hoje vamos até Coimbra e não é para ouvir o fado nem ver capas e batinas.

arroz de feijão
os famosos ossos e a petinga em escabeche ao fundo
a famosa chanfada, embaixadora da cozinha beirã
um close-up da chanfana
o arroz de feijão com a vitela
vomitado ... a especialidade da casa

Nome: Zé Manel dos ossos
Data da visita: Maio de 2016
Localização: Coimbra, centro da cidade
Comentário: reconheço que Coimbra não é um ponto de paragem habitual nestas minhas andanças pelo nosso abençoado retângulo à beira mar plantado. Não porque tenha algo contra, muito pelo contrário, mas porque simplesmente não se proporciona. Na mais recente visita à cidade dos estudantes o que mais me impressionou foi a movida alimentada à base de turistas, maioritariamente estrangeiros. Isto é algo que estamos habituados a ver em cidades como Lisboa ou Porto, mas sinceramente não estava à espera de encontrar uma Coimbra cosmopolita e multi-cultural. O plano era almoçar na cidade em spot referenciado há já algum por tempo por um kamarada comensal, descrito como: 
- ... um sítio muito pequeno, onde se comem ossos. 
- Ossos? - questiono eu ... 
- Sim, tipo costelinha, mas diferente ... muito bom!
- Ah ok! Tenho de um experimentar ... thanks pela dica.
Ora, bastante tempo depois, numa paragem na cidade do conhecimento, eis que surge a oportunidade de tirar do "saco das dicas", o Zé Manel dos ossos. Localizado em pleno coração da cidade, de estacionamento entre o muito dificil e o impossível, numa viela em que literalmente não cabem das pessoas lado a lado, chegamos ao Zé Manel. A primeira visão é de uma fila de largos metros composta por pessoas de todo o mundo ... maldito sejas, Tripadvisor que revelas todos os segredos a qualqur um!
Depois de uma boa meia hora a aguardar na fila, lá nos foi dado acesso ao interior da casa e imediatamente me veio à memória a primeira descrição da casa como "um sítio muito pequeno" ... pequeno é favor! É mesmo bastante pequeno, com cerca de meia duzia de mesas, num espaço onde normalmente não caberiam mais de três! 
papel com dedicatórias a cobrir as paredes
O elemento que mais depressa salta à vista da decoração é o facto das paredes estarem repletas de papeis com dedicatórias, em todas as linguas ... algo a fazer corar qualquer monumento de nível mundial. Papel, papel, papel por todo o lado, a contribuir ainda mais para um ambiente a roçar o claustrofóbico. A propria forma de staff receber e servir os comensais é por si só parte do espetáculo. Boa disposição, brincadeira e interacção com os clientes é uma constante. A carta como seria de esperar é composta por petiscos de comida tradicional portuguesa e possui bastante diversidade. Como não sabiamos exatamente o que pedir e pretendiamos provar o maior numero possível de pitéus, optamos pela decisão técnica mais acertada: a elaboração de um pijaminha, ideia apreciada pelo simpático senhor que nos atendeu e que ajudou com toda a boa vontade a que fossem seleccionados os petiscos mais emblemáticos da casa. Depois de algum trabalho técnico, o produto final foi:
- a petinga com molho de escabeche
- os famosos ossos
- a imperdível chanfana com batata cozida e feijão verde
- vitela grelhada com arroz de feijão

Se algo havia, transversal a todos os pratos, era a excelência e o aspeto caseiro. As petingas estavam bastante boas, com sabores evidentes do vinagre. Os famosos ossos, são as costelas de porco cozidas, com um molho à base de pimentão (especulo eu que fosse pimentão) simplesmente dívinal. Uma forma diferente de comer as costelas do porco, que ficou desde logo com mais um fã para toda a vida. A carne da chanfana estavem bem macia e tenra (a desfazer com o garfo) com molho bem escuro repleto de sabor. Arrisco dizer que esta chanfana passou para o meu top 3 pessoal do prato. Terminada a chanfana, eis que chega a hora de passar ao que elegi como o prato rei do fight: o arroz de feijão com vitela grelhada. De todos, claramente o prato mais simples e menos diferenciador, mas cuja genialidade do arroz trouxe essa consequencia ... o feijão era caseiro, e o arroz estava cozido na perfeição numa calda vermelho vivo e grossa que era uma verdadeira explosão de sabor. Simplesmente viciante, ao ponto de dizer que em futuros repetecos, tudo teria de ter este arroz a acompanhar. É preciso dizer mais?!?! 
As doses são bastante generosas, mais do suficientes para satisfazer o mais ávido comensal. Coube ao tinto da casa a dificil tarefa de casar toda esta diversidade e complexidade de sabores, um néctar de Terras de Sicó com taninos evidentes e boa estrutura. Nota muito positiva pela escolha de um vinho da região para levar o emblema da casa, mais ainda sendo uma zona fora das grandes e mais consensuais regiões vinicolas. Uma oportunidade para provar coisas diferenciadoras.
A generosidade das doses e a estrutura dos pratos mandavam que saltassemos a sobremesa, mas o facto da especialidade da casa se chamar "vomitado", sim percebeu bem, "vomitado", fez com que a curiosidade falasse mais alto e houvesse ainda a vontade de arranjar um espacinho para receber a especialidade de tão sugestivo nome. O vomitado é um doce de ovos e amêndoa, simplesmente divinal. O amargo da amêndoa e o bom doseamento do açucar proporciona um bom equilibrio ao ponto de nos congratularmos por não termos cometido o erro de saltar a sobremesa. 
Um bom par de horas depois de termos iniciado o fight eis que chega o momento de pedir a dolorosa, que rondou os 15€/pax, que transporta o Zé Manel para o pódio da melhor relação preço/qualidade. 
Repeteco? é assim: no dia da visita e nos dias seguintes, devem ter sido umas dezenas as vezes que dei por mim a pensar quando regressaria e até já tinha a ementa mentalmente preparada ... claro que iria envolver bastante arroz de feijão! É preciso dizer mais? 5*.



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2 comments:

  1. Sr. Lambetacho,
    Por sua "culpa", o Zé Manuel dos Ossos fará parte de nossa próxima visita a Portugal.
    Abraço,
    Cesar Barroso

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    Replies
    1. Boa noite Cesar. Faz muito bem em visitar o Ze Manel dos ossos em Coimbra. Prepara-se para esperar por mesa, pois a casa é mesmo muito pequena para tanta gente. mas vai ver que compensa. Se vai andar poela zona de Coimbra, sugiro um passeio até à Lousã, onde há um restaurante de nome O Burgo, também 5*. é só procurar no blog.
      boa viagem

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